O mundo certamente é dividido em dois grupos de pessoas: 1) aquelas que, ao iniciarem uma conversa no WhatsApp, fazem um cumprimento inicial rápido e partem logo para o assunto desejado e; 2) aquelas que dão “bom dia” e abraçam o silêncio, tornando a devolutiva do cumprimento como algo instransponível para a comunicação.
O “bom dia” desacompanhado do tema é enigmático. Pode vir notícia boa, pode vir notícia ruim, pode vir notícia nenhuma. Enigma é bom no cinema. No jogo de tabuleiro; na literatura... no dia a dia a gente quer pragmatismo mesmo.
O “bom dia” calado constrange. Exige que a gente responda; causa um silêncio desnecessário; força a nossa participação na conversa. Aliás, que conversa? Ele cria um hiato onde não precisa. Atrofia a solução do problema, atrasa a chegada do convite, estica, sem necessidade, a antevéspera da bronca. Fala logo!
Detalhe: quem faz isso acha que está criando um marcador ético; porta-voz da educação; paladino da cordialidade. O que faço, do lado de cá? Eu recuso! Isso mesmo, não participo do jogo. Não tem essa de troca de bom dia-como-vai-e-você-vou-bem-que-bom-bom-também-etc. Não digo nada. Nadinha. Você não veio até mim apenas para desejar “bom dia”. Não foi o que te trouxe aqui, logo, quando resolver assumir as suas intenções, a gente continua.
Pode parecer rude (e é!), mas deixo o bom dia de molho. Fica lá. Preclui. Vira um “bom dia” de tarde, depois um “bom dia” que já chegou na noite, e já teve casos que poderia ter sido logo “boa semana” porque deixei o “bom dia” parado por dias. Eu me recuso avançar daí.
Bom, na maioria dos casos o sujeito supostamente educado (demais!) se cansa: “...sei que deve tá corrido por aí, mas só queria dizer que...”. Não, não está corrido. Aliás, até está, mas não é por isso.
Por outro lado, para muita gente o “bom dia” é sagrado: ou devolve, ou não tem papo. Nesse caso a coisa é mais séria, mas quando aconteceu comigo venci mesmo assim. Ou talvez tenha perdido. Ou perdemos ambos. Pois tive um colega, o Pedro, que não deu um passo sequer. Deixou o “bom dia...” enfincado na tela, e ele segue lá, paradinho – e olha que eu tô falando de “bom dia” que vai completar dois anos.
Eu e o Pedro temos, portanto, o registro de uma conversa que ficará para a posteridade sem nunca ter começado.
…
P.s.: Se você conhece o Pedro, manda esse texto pra ele e pede para ele responder aqui, contando o que é que ele queria falar comigo.




Adorei!! Também sou do time “Oi, tudo bem? Blá-blá-blá”
Muito bom! Humor gostoso! kk. É libertador escrever uma crônica. Tenho lido Rubem Braga, ultimamente.
Ps.: quando a profissão entrega o homem: "Fica lá. Preclui.".
Obrigado pela escrita.