adoro crônicas que falam de "micro-conflitos", especialmente na era digital. adorei! o tom do narrador é assumidamente rude, e isso é um acerto muito perspicaz, literariamente falando. a estratégia de não responder até que o outro "assuma suas intenções" é um exercício de poder sobre o próprio tempo. mas o encerramento, para mim, é de uma reflexão irônica e melancólica perfeita, por vezes nos apegamos a forma (a educação ou negação dela) e isso destrói o verdadeiro conteúdo que é a própria relação humana. no texto, há alguns termos que eu não conhecia como "precluir", trás um ar de intelectualidade mas também de arcaísmo, ao meu ver. é divertido e é impossível ler e não lembrar de alguém, ou de si mesmo. adorei, Luiz!
Muito obrigado por esse excelente comentário, Acácio! Gostei muito! “Precluir” foi um acidente! Quando escrevo crônica a coisa sai no impulso, o texto é “cuspido” todo de uma vez com pouquíssima revisão - gosto dessa espontaneidade do gênero. Daí, acontecem acidentes. Preclusão é expressão própria do direito. Contaminei o texto com ela pelo uso recorrente no cotidiano do trabalho. Detesto juridiquês fora do ambiente forense, então foi, assumidademnte, um erro. Mas depois que estava lá, e que já leram com ela lá, não quis editar. As imperfeições também são desdobramentos das crônicas - pelo menos gosto de acreditar que sim, rs. Abraço, meu caro!
Luiz, seu texto apareceu no meu feed e como eu gosto de escrever feedback, decidi deixar um aqui para você: seu texto se sustenta por uma premissa simples e reconhecível, e constrói a partir dela uma crônica com forte ancoragem no cotidiano digital. A divisão inicial em dois grupos funciona como gatilho cognitivo eficiente, cria identificação imediata e estabelece um campo de conflito claro. Há precisão na observação do comportamento, o “bom dia” isolado como unidade comunicativa problemática, e isso sustenta a progressão argumentativa sem dispersão temática.
O tom é declaradamente irônico e levemente combativo, o que dá voz ao narrador e cria uma persona consistente, alguém que racionaliza a impaciência e a transforma em princípio. Essa voz se fortalece quando assume o exagero como recurso, especialmente em trechos como “preclui”, “atrofia a solução do problema”, “paladino da cordialidade”. Há um jogo interessante entre linguagem técnica, quase jurídica, e um tema banal, o que produz humor por contraste. Esse procedimento aparece de forma estável ao longo do texto, o que ajuda na coesão estilística.
O ritmo é bem controlado por blocos curtos e progressão em espiral. O texto parte da classificação, passa pela análise do fenômeno, depois entra na reação pessoal e, por fim, chega ao exemplo concreto com o Pedro. Esse último movimento é decisivo, porque materializa a ideia em narrativa, e não apenas em opinião. A imagem do “bom dia” que envelhece na tela funciona como síntese visual e temporal do argumento. O fechamento é eficaz porque não resolve o conflito, apenas o congela, o que está alinhado com o próprio tema.
A construção sintática contribui para a oralidade, com repetições controladas, enumerações e interrupções que simulam pensamento em fluxo. Expressões como “Fala logo!” e “Não, não está corrido” introduzem micro-rupturas que mantêm a energia do texto. Ao mesmo tempo, há momentos de condensação conceitual mais densa, o que cria variação de registro e evita monotonia.
Como mínimas sugestões que não foram solicitadas e podem ser livremente ignoradas, um ponto de atenção está na tendência à explicitação após a ideia já ter sido bem construída. Em alguns trechos, o texto reafirma o que o leitor já inferiu, especialmente na parte em que descreve os efeitos do “bom dia” calado. Uma leve contenção nesses momentos pode aumentar a força do subentendido e tornar o texto mais cortante. Além disso, a oposição inicial em dois grupos é produtiva, mas poderia ser tensionada mais adiante, talvez insinuando zonas intermediárias ou contradições internas do próprio narrador, o que ampliaria a complexidade sem perder o humor.
No conjunto, o texto é eficiente na observação, consistente na voz e preciso no fechamento, com uma imagem final que fixa a ideia central sem necessidade de moralização explícita. Gostei muito!
Oi, Carlos! Obrigado por dedicar o seu tempo a realizar uma análise do texto. Fico muito contente que tenha gostado do que leu. Quanto às sugestões de melhoria, adianto que não me incomodo com nenhuma delas e não as ignoro, mas também não adiro, rs. Não por vaidade ou arrogância, mas é porque pra mim os detalhes sugeridos de “ajustes” traduzem um projeto de perfeição. E o texto não é pra ser perfeito. A crônica não é milimetricamente pensada, calculada, medida. Eu não faço ajuste de cada reação do leitor a cada linha; não planejo cada pausa, mudança de clímax, oscilação de humor - essas coisas todas acontecem (ou não!) de forma espontânea, pela dinâmica do texto mesmo. Acho que a escrita criativa é imperfeita e essa é graça. Mas, de coração, você e seus comentários são muito bem-vindos por aqui. Volte sempre, meu caro! Um abraço.
Um de meus netos tinha, quando pequeno (ele está com 17 agora), a mania de perguntar "posso falar?" - e não falava nada, além de repetir a pergunta, até que a gente respondesse, com algo como "sim, o que você quer falar?"... Às vezes, quando, enfim, a gente respondia, ele já havia esquecido o que queria falar... Bem, pelo menos cresceu e aprendeu a ir direto ao ponto...
Eu usava a condição de introvertido para evitar o bom dia: justificava que não queria mesmo era perturbar o dia de ninguém com essa necessidade de ser correspondido - mas hábito social me venceu. Passei a agenciar o princípio fransicano de "cumprimentar mais que ser cumprimentado".
Hahahahaha… boa! Mas tá tudo bem em cumprimentar. O problema é precisar ser cumprimentado de volta para só então continuar uma conversa que é em texto.
Sou da sua turma, Luiz. Há ainda, na turma dos que são do "bom dia", os que trocam uma linha de mensagem a cada 2 horas - diluindo uma mensagem curta num dia inteiro.
Não há nada mais irritante que banalidades a conta gotas.
Bem lembrado!!! Esse fenômeno dava no mínimo mais um parágrafo da crônica, Mateus! kkkkk. Ou uma nova crônica que já tem até título: "banalidades a conta gotas".
Esse último para os que consideram que mensagem de texto tem que ser respondida segundos após o envio. Afinal de contas, se o texto chega instantaneamente, por obvio, o receptor está a postos para atender.
Concordo muito com a leitura do “jogo”. O “bom dia” aparece menos como educação e mais como dispositivo de contato: testa presença, produz obrigação de resposta, abre uma conversa sem assumir ainda o que se quer dizer.
O interessante é que a cordialidade vira uma espécie de antecâmara da demanda. Parece banal, mas já instala expectativa e pequena tensão. A conversa começa antes do assunto, justamente nesse cumprimento que finge ser simples.
É uma boa perspectiva, Caroline! A conversa começa antes, mas corre o risco de acabar antes também, rs, depende muito da disposição do interlocutor. Obrigado pelo comentário!
Adorei!! Também sou do time “Oi, tudo bem? Blá-blá-blá”
Direto ao ponto? Melhor time. 🫶
Muito bom! Humor gostoso! kk. É libertador escrever uma crônica. Tenho lido Rubem Braga, ultimamente.
Ps.: quando a profissão entrega o homem: "Fica lá. Preclui.".
Obrigado pela escrita.
kkkkkkkk, muito obrigado, Waves! O “preclui” foi um acidente, o juridiquês jamais me vencerá - e você é observador(a)!! rs.
Gostei bastante da Crônica de como as palavras são apresentadas.
Obrigado!
adoro crônicas que falam de "micro-conflitos", especialmente na era digital. adorei! o tom do narrador é assumidamente rude, e isso é um acerto muito perspicaz, literariamente falando. a estratégia de não responder até que o outro "assuma suas intenções" é um exercício de poder sobre o próprio tempo. mas o encerramento, para mim, é de uma reflexão irônica e melancólica perfeita, por vezes nos apegamos a forma (a educação ou negação dela) e isso destrói o verdadeiro conteúdo que é a própria relação humana. no texto, há alguns termos que eu não conhecia como "precluir", trás um ar de intelectualidade mas também de arcaísmo, ao meu ver. é divertido e é impossível ler e não lembrar de alguém, ou de si mesmo. adorei, Luiz!
Muito obrigado por esse excelente comentário, Acácio! Gostei muito! “Precluir” foi um acidente! Quando escrevo crônica a coisa sai no impulso, o texto é “cuspido” todo de uma vez com pouquíssima revisão - gosto dessa espontaneidade do gênero. Daí, acontecem acidentes. Preclusão é expressão própria do direito. Contaminei o texto com ela pelo uso recorrente no cotidiano do trabalho. Detesto juridiquês fora do ambiente forense, então foi, assumidademnte, um erro. Mas depois que estava lá, e que já leram com ela lá, não quis editar. As imperfeições também são desdobramentos das crônicas - pelo menos gosto de acreditar que sim, rs. Abraço, meu caro!
Luiz, seu texto apareceu no meu feed e como eu gosto de escrever feedback, decidi deixar um aqui para você: seu texto se sustenta por uma premissa simples e reconhecível, e constrói a partir dela uma crônica com forte ancoragem no cotidiano digital. A divisão inicial em dois grupos funciona como gatilho cognitivo eficiente, cria identificação imediata e estabelece um campo de conflito claro. Há precisão na observação do comportamento, o “bom dia” isolado como unidade comunicativa problemática, e isso sustenta a progressão argumentativa sem dispersão temática.
O tom é declaradamente irônico e levemente combativo, o que dá voz ao narrador e cria uma persona consistente, alguém que racionaliza a impaciência e a transforma em princípio. Essa voz se fortalece quando assume o exagero como recurso, especialmente em trechos como “preclui”, “atrofia a solução do problema”, “paladino da cordialidade”. Há um jogo interessante entre linguagem técnica, quase jurídica, e um tema banal, o que produz humor por contraste. Esse procedimento aparece de forma estável ao longo do texto, o que ajuda na coesão estilística.
O ritmo é bem controlado por blocos curtos e progressão em espiral. O texto parte da classificação, passa pela análise do fenômeno, depois entra na reação pessoal e, por fim, chega ao exemplo concreto com o Pedro. Esse último movimento é decisivo, porque materializa a ideia em narrativa, e não apenas em opinião. A imagem do “bom dia” que envelhece na tela funciona como síntese visual e temporal do argumento. O fechamento é eficaz porque não resolve o conflito, apenas o congela, o que está alinhado com o próprio tema.
A construção sintática contribui para a oralidade, com repetições controladas, enumerações e interrupções que simulam pensamento em fluxo. Expressões como “Fala logo!” e “Não, não está corrido” introduzem micro-rupturas que mantêm a energia do texto. Ao mesmo tempo, há momentos de condensação conceitual mais densa, o que cria variação de registro e evita monotonia.
Como mínimas sugestões que não foram solicitadas e podem ser livremente ignoradas, um ponto de atenção está na tendência à explicitação após a ideia já ter sido bem construída. Em alguns trechos, o texto reafirma o que o leitor já inferiu, especialmente na parte em que descreve os efeitos do “bom dia” calado. Uma leve contenção nesses momentos pode aumentar a força do subentendido e tornar o texto mais cortante. Além disso, a oposição inicial em dois grupos é produtiva, mas poderia ser tensionada mais adiante, talvez insinuando zonas intermediárias ou contradições internas do próprio narrador, o que ampliaria a complexidade sem perder o humor.
No conjunto, o texto é eficiente na observação, consistente na voz e preciso no fechamento, com uma imagem final que fixa a ideia central sem necessidade de moralização explícita. Gostei muito!
Oi, Carlos! Obrigado por dedicar o seu tempo a realizar uma análise do texto. Fico muito contente que tenha gostado do que leu. Quanto às sugestões de melhoria, adianto que não me incomodo com nenhuma delas e não as ignoro, mas também não adiro, rs. Não por vaidade ou arrogância, mas é porque pra mim os detalhes sugeridos de “ajustes” traduzem um projeto de perfeição. E o texto não é pra ser perfeito. A crônica não é milimetricamente pensada, calculada, medida. Eu não faço ajuste de cada reação do leitor a cada linha; não planejo cada pausa, mudança de clímax, oscilação de humor - essas coisas todas acontecem (ou não!) de forma espontânea, pela dinâmica do texto mesmo. Acho que a escrita criativa é imperfeita e essa é graça. Mas, de coração, você e seus comentários são muito bem-vindos por aqui. Volte sempre, meu caro! Um abraço.
Um de meus netos tinha, quando pequeno (ele está com 17 agora), a mania de perguntar "posso falar?" - e não falava nada, além de repetir a pergunta, até que a gente respondesse, com algo como "sim, o que você quer falar?"... Às vezes, quando, enfim, a gente respondia, ele já havia esquecido o que queria falar... Bem, pelo menos cresceu e aprendeu a ir direto ao ponto...
Hahaha… muito bom! Obrigado por compartilhar essa sua experiência, Alberto. A associação é perfeita: parece papo de criança, rs.
Nossa, tenho aversão ao “Bom dia” com enigma, e quando em seguida manda um “pode falar?” mas não dá continuidade rápida?
Siiiim! “Pode falar?” - Não, mas você, pelo visto, pode, então fala logo. É a vontade, kkkkkk.
Eu usava a condição de introvertido para evitar o bom dia: justificava que não queria mesmo era perturbar o dia de ninguém com essa necessidade de ser correspondido - mas hábito social me venceu. Passei a agenciar o princípio fransicano de "cumprimentar mais que ser cumprimentado".
Hahahahaha… boa! Mas tá tudo bem em cumprimentar. O problema é precisar ser cumprimentado de volta para só então continuar uma conversa que é em texto.
Sou da sua turma, Luiz. Há ainda, na turma dos que são do "bom dia", os que trocam uma linha de mensagem a cada 2 horas - diluindo uma mensagem curta num dia inteiro.
Não há nada mais irritante que banalidades a conta gotas.
Bela crônica!
Bem lembrado!!! Esse fenômeno dava no mínimo mais um parágrafo da crônica, Mateus! kkkkk. Ou uma nova crônica que já tem até título: "banalidades a conta gotas".
Obrigado, meu querido! Feliz que tenha gostado.
hahahaha
Sugiro então uma trilogia:
1°) Protocolo do Vazio Cordial
2°) Banalidades a conta-gotas
3°) O instantâneo Imediato
Esse último para os que consideram que mensagem de texto tem que ser respondida segundos após o envio. Afinal de contas, se o texto chega instantaneamente, por obvio, o receptor está a postos para atender.
Um abraço, meu amigo!
O substack já admite coautoria? Tô achando que vamos ter que escrever essa microssérie conjuntamente, hahahaha...
Concordo muito com a leitura do “jogo”. O “bom dia” aparece menos como educação e mais como dispositivo de contato: testa presença, produz obrigação de resposta, abre uma conversa sem assumir ainda o que se quer dizer.
O interessante é que a cordialidade vira uma espécie de antecâmara da demanda. Parece banal, mas já instala expectativa e pequena tensão. A conversa começa antes do assunto, justamente nesse cumprimento que finge ser simples.
É uma boa perspectiva, Caroline! A conversa começa antes, mas corre o risco de acabar antes também, rs, depende muito da disposição do interlocutor. Obrigado pelo comentário!
Boa noite! E não vale deixar parado como aquele bom dia! Responda!!!
Pois cá estamos! Considere respondido, Dulce! Kkkk. Boa noite!
Adorei! 😁👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Obrigado, Michele!!!
Fala logo, Pedro!
Pedro é radical demais, kkkkkk. Leva as próprias regras muito a sério.
kkkkkkkk... não caio mais!