Tem jeito! Aliás, tem jeitinho.
Hoje me deparei com a cena triste do solado do tênis descolando. Não é o solado todo, mas um pedaço relevante. Eu pratico determinado esporte que é voltado para mais de um tipo de quadra e para cada tipo de quadra eu tenho um tipo de tênis. Isso por si só já é um luxo e tem um custo, precisei chegar no mundo dos playboys para isso acontecer (papo para outro dia). A vantagem é que são tênis que duram por anos, então eu nem me recordo de quando comprei esse, especificamente.
Mas se eu já tenho um para cada tipo de quadra, o simples fato de ter que trocar cada um deles ao menor sinal de intempérie é um exagero. Minha vó (e talvez a sua vó também) dizia que só não tem solução para a morte. A essa altura você já sabe o que eu fiz, né? Colei o sapato, com essas supercolas que colam tudo, sobretudo os dedos do operador. Pesquisei rapidamente na internet e encontrei uma cola de cinco reais. É essa? Claro que é essa.
Vou dar uma olhada nos comentários. ‘Não presta’, ‘não cola’, ‘não funciona’, ‘seca rápido’, ‘acaba em um dia’, ‘não vale nem os cinco reais’. Bom, não era essa. Então pesquiso um pouco mais e vejo uma de quinze reais. A de quinze reais deve ser boa. É três vezes mais cara que a outra, três vezes! Deve ser muito boa. Ou pelo menos não é horrível. Então já atenderá a finalidade.
Daí eu lembro que a gente vem da tradição milenar da havaiana com prego embaixo. Eu sei que saiu um pouco de moda e associaram isso a algum traço de miserabilidade do qual a gente morre de medo de ser confundido e foi matando a tradição secular, mas, tradicionalmente, havaiana arrebentada é prego; grampo, qualquer pedacinho de ferro que possa furar a linguinha daquele encaixe entre os dedos por baixo do pedaço fino e frágil (e caro) de borracha.
Mas não só.
O sinal da TV não pegava direito: bombril na antena (daquelas de alumínio em forma de “V”).
A panela está rachando? Durepox ao redor do furo, esculpindo a parte externa.
Fio descascando? Fita isolante (essa é coringa! Vai no chuveiro principalmente).
Controle remoto perdeu a tampa: fita crepe abraçando as pilhas.
Retrovisor ou para-choque caindo: Silver Tape.
Espelho quebrado? Durex. Serve para a perna da armação dos óculos também. E até para unir as duas partes da cédula de dinheiro, especialmente da falecida nota de “um real” (que a geração pix não faz ideia do que se trata).
Se o botão da calça caiu e sumiu, só colocar um alfinete de segurança. Estratégico e invisível.
Não serve mais? Reaproveita! Garrafa pet vira regador, pote de sorvete se torna o guardião do feijão etc.
Tá pendurado? Amarra. Quebrou? Emenda. Trincou? Cola.
Pode ser que exista aqui um traço de “consumo responsável”, uma compreensão da finitude dos recursos, sustentabilidade, responsabilidade ambiental. Seria lindo. Mas não tem nada a ver. Nada. É que a gente é forjado no improviso. É do brasileiro. Não podia ser diferente.
E nada disso nasceu no armário empenado embaixo da pia com goteira. O Brasil, enquanto nação, foi montado assim, no “remendo”. A gente improvisou a independência, gritando aos quatro cantos que era isso ou morte, mas mantivemos a escravidão, o latifúndio e até a monarquia. A monarquia, bicho! Pensaram “é só pintar de verde e amarelo com um globo azul no meio que convence, sei lá”. Falando em pintar, pintamos o Dom Pedro I todo pomposo às margens do Rio Ipiranga, parecendo um general medieval enorme, mas o cara não passava de 1,65 de estatura. Questão de ajuste.
Improvisamos a República sem “coisa pública” nenhuma, com mistura de golpe de Marechal em cima de golpe, e talvez aqui tenhamos inaugurado o clássico “seis por meia dúzia” ao substituirmos monarquia por oligarquia, isso lá no finzinho do século XIX.
Improvisamos uma democracia que não sabemos sequer quando começou; cheia de pausas, hiatos, esquartejada em 64, e que ninguém tem certeza se voltou mesmo em 1988, pois segue mais cambaleante que o bêbado do Aldir Blanc na voz da Elis Regina.
A gente gosta da história com adaptação, com jeitinho, com remendo. Tanto a nossa trajetória enquanto nação como o nosso cotidiano são um pouco na base do durepox.
E aí você também pode chamar isso, em parte, do jeitinho brasileiro, que é um instituto muito maior. Porque o jeitinho brasileiro está desde pequenos reparos a coisas (ex)inúteis até grandes estratégias questionáveis do ponto de vista ético, com repercussões sociais significativas a fim de proveito próprio. Bom, aí é mais sério, é mais grave. É conversa para outro texto, algum desses artigos que eu mando aqui e só metade de vocês leem porque cito meio mundo de sociólogos, filósofos e outros ‘ólogos’, para dar um pouco de credibilidade para os devaneios deste autor. Aqui, não. Crônica dispensa bibliografia.
É o adesivo, é o prego, é o filtro, é o quebrado. O quebrado com remendo! E é o tênis. Vocês lembram do tênis?
A verdade mesmo é que a cola de quinze reais segurou o pedaço do tênis assim como a monarquia pintada de verde segurou a independência; foi meia hora apertando o solado com as mãos para dar certo. Botei no pé. Dá para ver que está colado, não está com cara de novo, mas serve a um único fim: praticar determinado esporte em determinado piso.
E para isso, queridos, está tipo a cidade do Rio de Janeiro: maravilhosa. Apenas maravilhosa – quem quiser dizer mais que fique quieto.
Talvez seja isso, no fundo. O Brasil nunca foi exatamente um produto acabado. É mais uma obra em uso, cheia de adaptações e soluções provisórias com vocação para a permanência. Nada aqui parece sair perfeito de fábrica, mas quase tudo continua funcionando de alguma maneira. Às vezes torto, às vezes colado, às vezes preso por um arame institucional – ou arame de ferro mesmo. E, convenhamos, há certa genialidade nisso.
Enquanto houver um resto de sola, um pingo de cola ou uma ideia atravessada, a gente ainda dá um jeito. Aliás, a gente dá um “jeitinho”. Nem sempre o melhor, mas quase sempre suficiente.
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Se você estiver com preguiça de ler e quiser assistir à narração do próprio autor, tem aqui:
Até breve.






Que crônica boa e necessária 👏🏻. Estou torcendo pelas próximas.
Na minha terra chamam de "armengue"