O ano era 2020. No vídeo que circulava no WhatsApp um sujeito com cara de especialista em tudo (e nada) dizia que foram implantados microchips com tecnologia 5G em vacinas. A teoria era a de que os imunizantes foram pensados para monitorar a população. Chamamos essa desinformação (e muitas outras) de fake news – que é “notícia falsa” mesmo, só que com slogan importado.
A pretensão é grande: falsear a verdade. Pretensioso porque do ponto de vista filosófico “verdade absoluta” não existe. E a premissa não é tão complexa, justifica-se porque a realidade não é imutável, mas o oposto. Consideremos também que a compreensão do mundo a partir de elementos humanos (visão, olfato, audição, assimilação etc.) tende a falhar vez ou outra.
Só que existe alguma correspondência com o que a gente experiencia, no mundo perceptível e verificável, e o que se diz a respeito. Se está chovendo e eu digo que chove, há uma verdade aí. Se o Sol arde ao meio-dia eu digo que é noite, há falta dela. Dito isso, a gente consegue identificar exatamente do que se trata “notícia falsa” mesmo com toda suposta relatividade em torno do tema.
Mas é preciso dizer que as tais “fake news” não nasceram em 2020. Nem na campanha presidencial de 2014. É difícil datar, mas posso começar contando uma de mais de três séculos antes de Cristo. E o dono é ninguém menos que Aristóteles. Juro. Um dos maiores pensadores da humanidade, o pai do silogismo, da eudaimonia, da catarse (palavra que dá nome ao blog deste autor), escorregou na notícia. Falou bobagem. Na melhor das intenções. O filósofo espalhou pela cidade que corpos mais pesados caíam mais rapidamente do que corpos leves. Traduzindo: se você largar, de determinada altura, uma bola de papel e uma bola de ferro, a segunda chegaria ao chão antes. Porém não é verdade, Ari.
Vinte séculos depois Galileu deu um basta nessa conversa. “Aí, galera, se a resistência do ar for a mesma, todos os corpos que caem possuem a mesma aceleração”. Ele quis dizer que as duas bolas tocariam o chão ao mesmo tempo. Disse e mostrou! Boatos de que Galileu subiu ao topo da Torre de Pisa e soltou, lá de cima, duas esferas de massas distintas, uma leve e uma pesada, de ferro maciço, e ambas caíram juntas.
A gente tende a acreditar mais no grego porque peso parece ter destino: o objeto pesado “deveria” cair primeiro. Só que a física tem dessas sagacidades, o que aumenta a força também aumenta a resistência à mudança de movimento. No fim, a bola pesada e a leve caem juntas.
A turma que assistiu ao experimento da queda-livre em Pisa era fechadíssima com o time “gregos-socráticos”. Mesmo com a experiência empírica vista a olho nu, negaram a tese de Galileu. Coisa de negacionista, já ouviu falar?
Enfim, chega de física. Era fake, mas nem tanto “fake news” porque Aristóteles acreditava no que estava dizendo e existia uma lógica até razoável por trás, fora a limitação do conhecimento científico para a época. Aristóteles absolvido.
Vamos caminhar na história. No fim do século XVIII houve boatos de que foram proferidas as seguintes palavras: Qu’ils mangent de la brioche, que também pode ser lido como “quem não tem pão que coma brioche”. A França estava falida, o pão faltava, os impostos esmagavam os pobres e a corte do Palácio de Versalhes seguia na sua excessivamente amanteigada fartura, típica de um mundo paralelo de quem decide a realidade dos outros. O deboche insensível foi associado a rainha consorte Maria Antonieta e custou o seu pescoço (literalmente) em 1793. O problema é que a esposa de Luís XVI, embora desprezasse a fome mesmo, nunca disse frase parecida. Só que a política raramente desperdiça uma boa caricatura. Fake news!
A falsificação se não vem com palavras vem emoldurada. Quando Pedro Américo pintou o Dom Pedro às margens do Ipiranga (e eu sei que já citei esse quadro na crônica anterior aqui, mas ainda é preciso) retratou ali uns soldados que eram os Dragões da Independência. É isso mesmo, os Dragões da Independência “estavam” na ocasião em que a própria independência ainda não existia. Seria o começo da estética da notícia falsa?
É preciso admitir, contudo, que mentir é próprio da humanidade, não de um tempo. E no Brasil a coisa ganhou tração na política.
Se eu considero que a direita está mais ligada a nacionalismo, ordem, militarismo e símbolos patrióticos, basta dizer: “Documento secreto revela que o candidato X pretende substituir todas as aulas de artes e sociologia por treinamento militar obrigatório e estudo do hino da bandeira”. Pronto.
Por outro lado, se eu considero que a esquerda está mais ligada a pautas identitárias e orientação sexual, basta dizer: “Plano de governo vazado mostra que candidato Y vai propor a criminalização do dia das mães e do dia dos pais”. Tá feito.
É o delírio (des)informativo em todos os espectros ideológicos. E só não vou ironizar a visão política brasileira de centro porque só aceito ironia que tem graça.
São preconceitos disponíveis para servir de matéria-prima à fake news. Ela pega algo que o eleitor já teme, coloca aspas, arte alarmista, fonte anônima e letras maiúsculas. Você ganha, de presente, uma confirmação psíquica na qual poderá acrescentar um saboroso “eu sabia” ou “tá aí, num disse?!”.
No fundo parece que a gente gosta. Mais que isso: somos competentes demais nesse tema. E existe uma razão. A fake news é uma prima distante de uma conhecida nossa, a fofoca. Um patrimônio nacional. Palavrinha de uso informal que define coisa contada em segredo, sem conhecimento da pessoa visada.
Segundo levantamento citado por Sérgio Rodrigues com base no Houaiss e no Aurélio, “mexerico” já aparece desde o século XV, “futrica” e “fuxico” são do século XIX, mas o primeiro registro oficial de “fofoca” no Aurélio seria de 1975. O que importa é que o Brasil já fofocava muito antes de chamar como tal.
Historicamente, a fofoca floresceu no Brasil colonial porque havia pouca privacidade, muita vigilância moral e uma sociabilidade baseada em freguesias, igrejas, vizinhanças e culto à hierarquia. A vida alheia era quase uma infraestrutura comunitária. Em sociedades pequenas, saber quem devia, quem bebia, quem rezava mal ou quem vivia em concubinato era uma forma de controle social. E convenhamos, divertidíssimo.
A Inquisição atuou no Brasil por meio de uma rede de representantes ao longo de mais ou menos 285 anos. Era a fofoca servindo aos interesses da Igreja. O Santo Ofício colhia dossiês com centenas de “denúncias”. Fuxico puro. Para fins sagrados e tudo mais. Ainda assim, fuxico!
Pera lá, Luiz, não vá tratar o instituto intocado da fofoca como sinônimo de notícia falsa! Com razão. Não são a mesma coisa. Pelo menos não nascem igual. O ponto de convergência é que a fofoca é também uma interpretação conveniente da realidade. Ambas vivem no mesmo território, que é o da oralidade, da suspeita, da lacuna informativa e do prazer narrativo. É bom de contar, simples assim.
Para ter uma fofoca eu preciso da ausência do protagonista acrescido de uma informação mais ou menos incompleta e uma comunidade interessada. É fácil e é espantosamente humano. Não sou eu que estou dizendo, mas está no livro famoso do Yuval Harari, o best-seller “Sapiens”. O homem vendeu mais de 20 milhões de cópias, tá? E o livro é bom mesmo. Ele diz que o que havia de mais especial na linguagem do homo sapiens, dentre as diversas teorias aceitas, era a de que mais relevante do que saber sobre predadores era “saber quem em seu bando odeia, quem trai (...), quem é honesto e quem é trapaceiro” e isso nos diferenciou de todas as demais espécies, conferindo vantagens evolutivas (aqui na minha edição é a p. 41).
Mas também não é difícil acrescentar nesse jogo a variável da distorção nociva ou interpretação maliciosa. É onde mora o talento para a fake news da mesma origem do fofoqueiro. É o “ouvi dizer”. É o “parece que...”. Basta. Todos os ingredientes presentes, falta só um empurrãozinho.
Se alguém diz que viu o Tião à noite, num passo apressado, perto da casa da Maria, que ficou viúva ano passado, em 10 minutos de conversa ele se transforma de transeunte atrasado para um amante flagrado na madrugada. Dois ou três interlocutores já seguem convencidos de que os personagens nutrem uma relação amorosa velada. Se o Tião for uma figura importante, a quantidade de gente convicta sobre essa história dobra e a velocidade da divulgação também. Assunto bom, fatos incertos, personagens relevantes é a soma da narrativa ideal.
Não é que a gente gosta. A gente ama! Eu estou falando do país do causo, do provérbio, do cordel, da anedota de calçada, da lenda, da história de assombração, do exagero de pescador. É palavra “da boca do povo”. Diz o ditado: quem conta um conto aumenta um ponto.
Essa “mentira popular” tem um valor estético. O problema é a conversa inventada com aptidão moralmente destrutiva. Entra em cena (e pesa o clima) a difamação e a destruição reputacional. Isso porque a fake news opera mais no plano da realidade pública, ou da “vida pública”. Cria-se um ambiente de suspeita permanente, no qual toda informação contrária parece conspiratória – e a gente segue gostando, mas não deveria. É a fofoca de boteco com diploma tecnológico. Antes ela precisava de uma vizinha na calçada ou alguém da família dizendo “não sei se é verdade, mas ouvi falar que…”. Hoje a coisa é mais instantânea e elaborada, porque ela chega com design, fonte em negrito, vídeo editado, voz indignada e o selo emocional da urgência. O tipo de coisa que você lê e diz: é bom demais pra ser verdade! Porque não é mesmo.
E piora. A fake news boa, digo, aquela bem-sucedida, parece mais verdadeira do que a verdade, porque é mais simples e mais confortável e ainda tem uma dose adicional de drama. Isso gera, entre outros, certa dificuldade de reconhecer um conteúdo real.
“Trump vai proibir o pix”. Entender que o pix é um sistema de pagamentos, regulado pelo Banco Central, sem ingerência estrangeira, com infraestrutura, regras de operação e código-fonte genuinamente brasileiros, sem vínculo jurídico ou tecnológico com os EUA exige um pouco. Não só de cognição, mas de pesquisa, leitura, entendimento. É uma opção mais demorada. A outra opção é substituir qualquer exercício desse por um clique em um botão de um nome só. Um só: compartilhar.
A nossa aptidão genuína com a fofoca traduz habilidade na produção e divulgação de notícia falsa, mas a primeira é fruto da cultura e revela um comportamento que assegura integração social entre grupos, enquanto a segunda precisa ser enfrentada e combatida. Sem meio termo.
O fofoqueiro trabalha com elemento surpresa e o benefício da dúvida e isso dá o ar da graça. Até aceita a possibilidade de estar errado. Da fofoca, a gente pode ser vítima, espectador ou autor acidental. Na fake news não há inocência quando somos cúmplices da sua circulação. Fora que ela não carrega a mesma humildade. É cheia de certezas, nos envaidece, colocando na mesma bacia a ignorância e o viés de confirmação. Oferece ao leitor um papel irresistível de ser aquele que enxergou a engrenagem secreta da conspiração por trás da cortina.
E até por isso, no fim das contas, talvez a fake news seja uma mentira que nos bajula e não nos engana. É por isso que corre longe. Onde fofoqueiro nenhum alcança, pois poucas coisas viralizam tão bem quanto uma ilusão que elogia o próprio iludido, falsificando não só o conteúdo da mensagem, mas a inteligência de quem acredita nela.
Se você estiver com preguiça de ler e quiser assistir à narração do próprio autor, tem aqui:



